O lateral-direito e um dos líderes da Seleção Brasileira, Danilo, concedeu uma longa entrevista coletiva nesta quinta-feira (18), completando quase um mês de preparação do grupo para a Copa do Mundo de 2026. Em uma conversa franca que misturou tática, bastidores do confinamento e o momento psicológico do elenco, o jogador de 34 anos analisou o rendimento da equipe após o empate na estreia contra Marrocos e projetou o confronto de sexta-feira, contra o Haiti.
Antes de responder às perguntas dos jornalistas, Danilo fez questão de iniciar a coletiva prestando uma homenagem e mandando forças ao ex-técnico Carlos Alberto Parreira, que foi internado recentemente. O tetracampeão mundial Zinho, que faz aniversário nesta quinta e atua como comentarista, também foi parabenizado e aplaudido de pé a pedido do lateral.
Questionado sobre a metodologia do técnico Carlo Ancelotti, que costuma definir a escalação poucas horas antes das partidas, Danilo minimizou o impacto da dúvida no elenco e explicou como funciona o futebol moderno.
"Todo time existe um núcleo duro, onde existem ali seis, sete, oito jogadores que são sim os titulares e jogam sempre. E ali existem três, quatro jogadores que estão sempre em uma rotação em base ao jogo, ao adversário e à estratégia. Hoje nós temos muito provavelmente um time 70% ou 80% definido para sexta-feira", revelou o lateral.
Danilo brincou sobre as escolhas de última hora do comandante italiano. "O treinador às vezes tem escolhas e decisões que não têm uma explicação lógica, o treinador tem uma cabeça maluca. Mas para mim, se ele falar que vou jogar 10 minutos antes, a minha preparação é a mesma."
Ao analisar os erros técnicos e o nervosismo apresentados no primeiro tempo do jogo contra Marrocos, Danilo foi realista. Ele admitiu que o Brasil ainda sofre com as constantes trocas de comando ocorridas ao longo do ciclo e que a equipe não possui o mesmo entrosamento de seleções que estão no topo há mais tempo.
"Nós temos que ser claros. O primeiro tempo contra Marrocos foi completamente aquém das nossas capacidades e daquilo que pede a camisa da Seleção Brasileira. Nós não temos a maturidade que uma equipe como a França tem hoje, ou como a própria Argentina tem. Nós não temos essa maturidade enquanto equipe", desabafou.
Como alternativa para suprir essa falta de encaixe, o jogador sugeriu uma postura mais pragmática em determinados momentos da Copa do Mundo. "Nossas ferramentas para jogar essas partidas têm que ser diferentes. Temos que usar outros mecanismos: talvez baixar a linha, não pressionar tanto, aceitar que a posse de bola seja do adversário. Isso é maturidade. Temos jogadores como Vinícius, Raphinha, Endrick e Rayan que, se o adversário der uma brecha, vão lá e fazem o gol."
Danilo fez questão de afastar os boatos externos de que o jovem atacante Endrick estaria "no fim da fila" por não ter entrado no primeiro jogo. O veterano teceu profundos elogios à joia brasileira.
"O Endrick é uma joia rara que a gente tem no futebol brasileiro, tem uma potência de perna muito grande e poder de decisão. É um cara que tem estrela, meu amigo. As coisas acontecem e ele faz gol. Hoje mesmo no treino, quando vocês [imprensa] saíram, ele fez gols de você falar 'cara, esse moleque...'. Ele vai ser muito importante para a gente na Copa do Mundo."
Sobre Neymar, que voltou a treinar com bola nesta quarta-feira, Danilo destacou o fator psicológico que o camisa 10 exerce sobre os adversários, mesmo sem estar na plenitude física. "Quando você tem um jogador como o Neymar, o rival joga com muito mais atenção e sempre pede ajuda de outro marcador. Isso faz com que alguém do nosso time fique livre. Só de estar na cancha ele desequilibra o que o adversário planejou."
O lateral, conhecido por sua postura crítica em relação à desorganização histórica do futebol nacional, elogiou a nova gestão comandada pelo coordenador Rodrigo Caetano. Segundo ele, o planejamento atual dá tranquilidade para o elenco focar apenas no campo.
Para ilustrar o momento de reconstrução da Seleção, Danilo utilizou a parábola do bambu chinês, que passa anos criando uma base forte de raízes debaixo da terra antes de crescer rapidamente. "Acredito muito em uma trajetória bonita nessa Copa do Mundo, mas essa organização vai trazer muitos frutos a médio e longo prazo, desde que a gente tenha a resiliência de esperar os processos", concluiu.
O Brasil enfrenta o Haiti nesta sexta-feira, às 21h30 (de Brasília), na Filadélfia, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo.