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Testemunhas de Jeová flexibilizam regra sobre transfusão e permitem uso do próprio sangue em cirurgias

Mudança mantém restrições, mas amplia autonomia individual em decisões médicas

21/03/2026 15h27
Por: Redação
Fonte: G1
Foto:Thinkstock
Foto:Thinkstock

As Testemunhas de Jeová anunciaram uma atualização em sua política sobre transfusões de sangue, permitindo que fiéis utilizem o próprio sangue em procedimentos médicos. A mudança, divulgada recentemente por líderes do grupo, autoriza a coleta, armazenamento e posterior reinfusão do sangue do próprio paciente em cirurgias previamente programadas.

Apesar da flexibilização, a religião mantém a proibição quanto ao recebimento de sangue de outras pessoas, preservando um dos princípios mais conhecidos da doutrina. A decisão marca uma adaptação pontual nas diretrizes, sem alterar a base teológica da crença.

O anúncio foi feito por Gerrit Lösch, integrante do corpo governante da organização, que destacou a responsabilidade individual dos fiéis. “Cada cristão deve decidir por si mesmo como seu sangue será usado em cuidados médicos e cirúrgicos”, afirmou.

Entenda o que muda na prática

Com a nova orientação, membros das Testemunhas de Jeová poderão optar por procedimentos como a autotransfusão — prática em que o próprio sangue do paciente é retirado antes de uma cirurgia e reutilizado durante ou após o procedimento.

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Esse tipo de técnica já é utilizado em hospitais e pode reduzir riscos associados a transfusões convencionais, como reações imunológicas ou transmissão de doenças. A novidade, portanto, abre espaço para alternativas médicas antes não aceitas por parte dos fiéis.

No entanto, a proibição do uso de sangue doado por terceiros continua em vigor. Segundo porta-voz da organização, “a crença fundamental a respeito da santidade do sangue permanece inalterada”, baseada na interpretação de passagens bíblicas que orientam a abstenção do sangue.

Base religiosa e tradição

As restrições às transfusões fazem parte da identidade das Testemunhas de Jeová há décadas. A interpretação religiosa se apoia em trechos do Antigo e do Novo Testamento, que, segundo a organização, determinam a proibição do consumo ou uso de sangue.

O grupo é conhecido mundialmente por sua atuação evangelizadora e conta com cerca de 9 milhões de seguidores, sendo aproximadamente 900 mil no Brasil.

Repercussão e críticas

A mudança foi recebida com críticas por parte de ex-integrantes e especialistas. Um dos críticos, o ex-membro americano Mitch Melon, afirmou que a flexibilização ainda é limitada.

Segundo ele, a nova diretriz não resolve situações emergenciais em que a transfusão de sangue de terceiros pode ser essencial para salvar vidas, como em casos de acidentes graves ou tratamentos complexos, incluindo alguns tipos de câncer.

“Essa mudança de política não concede total liberdade de consciência para aceitar intervenções potencialmente vitais que envolvam sangue doado”, afirmou em entrevista à imprensa internacional.

Casos judiciais reacendem debate

A discussão sobre transfusões e liberdade religiosa também tem sido tema recorrente no Judiciário. Um exemplo recente ocorreu em Edimburgo, onde um tribunal autorizou médicos a realizarem transfusão de sangue em uma adolescente de 14 anos, mesmo contra sua vontade declarada.

A decisão levou em conta o risco à vida da paciente. A juíza responsável pelo caso entendeu que o procedimento era necessário para garantir a sobrevivência da jovem, ainda que respeitando suas convicções religiosas.

Debate entre fé, medicina e autonomia

A atualização da política reacende discussões sobre os limites entre liberdade religiosa, autonomia individual e decisões médicas. Especialistas apontam que, embora a mudança represente um avanço, ainda há desafios em conciliar crenças religiosas com práticas médicas consideradas essenciais em situações de risco.

Ao permitir o uso do próprio sangue, as Testemunhas de Jeová sinalizam uma abertura para soluções intermediárias, mas mantêm firme a posição histórica contra transfusões de doadores.

O tema segue em debate tanto dentro quanto fora da comunidade religiosa, especialmente diante de casos clínicos complexos que exigem decisões rápidas e potencialmente decisivas para a vida dos pacientes.

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