A manifestação reuniu alunos da tradicional instituição de ensino federal em um ato que teve como objetivo denunciar episódios de assédio e cobrar medidas mais efetivas de prevenção e acolhimento dentro do ambiente escolar.
O protesto foi organizado após ganhar repercussão a denúncia de estupro coletivo envolvendo uma estudante do colégio. O crime teria ocorrido em janeiro deste ano em um apartamento localizado no bairro de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro.
Segundo as investigações, quatro homens e um adolescente teriam participado da violência contra a estudante. Entre os acusados estão dois alunos do Colégio Pedro II.
Um deles foi identificado como Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, filho do então subsecretário de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do governo do Rio de Janeiro, José Carlos Simonin. Após a repercussão do caso, o pai do estudante acabou sendo demitido do cargo.
O outro acusado é menor de idade e, por isso, teve a identidade preservada pelas autoridades.
Durante o protesto realizado nesta terça-feira, estudantes destacaram que o objetivo da manifestação não é atacar a instituição, mas exigir ações concretas para garantir segurança às alunas.
A estudante Ana Belarmino relatou que muitas jovens convivem com medo diante da situação.
"A gente tem medo real, na verdade, a gente tem até medo que aconteça alguma coisa com a gente. Não por causa do colégio, o colégio não é o nosso inimigo e eu acho que isso tem que ficar muito claro. Meu medo, na verdade, é que a gente sofra alguma retaliação tanto virtual, quanto, enfim, presencial mesmo. Desses movimentos, movimento red pill, dos movimentos reacionários", afirmou.
Segundo ela, o ambiente de debate sobre temas como gênero, sexualidade e respeito dentro da escola ainda enfrenta resistência, o que dificulta o enfrentamento de situações de violência.
A estudante também criticou o que considera um processo de silenciamento em torno do tema do assédio dentro do ambiente escolar.
"Quando a gente fala sobre esse licenciamento também, a gente fala sobre o movimento que ele acontece por conta desse desrespeito que tem os movimentos reacionários com o Colégio Pedro II, de não criar espaços para o debate de gênero e sexualidade dentro da escola. Porque assim, se existisse, de fato e efetivamente, como em algum momento, e um momento curtíssimo, existiu o debate de gênero e sexualidade dentro do Pedro II, a gente não teria o problema de uma aluna, por exemplo, como foi falado na entrevista do Fantástico, não sabendo que tinha sido abusada pelo Vitor Hugo", declarou.
Além da mobilização estudantil, professores e servidores da instituição também passaram a discutir medidas institucionais para lidar com denúncias de assédio e violência.
Um dos principais pontos levantados pelos manifestantes é a criação de uma comissão permanente dedicada ao acolhimento de vítimas e ao enfrentamento de situações de assédio, discriminação e violência dentro da escola.
De acordo com estudantes e representantes do sindicato dos servidores da instituição, o tema já vinha sendo debatido desde 2022, mas enfrentava dificuldades para avançar.
A criação da comissão foi aprovada somente nesta segunda-feira, após pressão de estudantes, professores e funcionários.
Agora, a preocupação dos manifestantes é garantir que a proposta seja efetivamente implementada.
A professora Priscila Bastos, integrante do Sindicato dos Servidores e Servidoras do Colégio Pedro II, explicou que ainda existem divergências sobre o formato da comissão.
"O entrave maior, entre a nossa proposta e o que a reitoria apresentou, é que a gente cria na nossa proposta uma comissão permanente de acolhimento e enfrentamento a essas questões de assédio, discriminações dentro da escola. Uma comissão descentralizada, que não depende de qual é o gestor ou da vontade individual do servidor de tratar do tema", afirmou.
Segundo ela, a ideia é institucionalizar um espaço permanente dentro da escola para lidar com denúncias e promover políticas de prevenção.
"É uma institucionalização de um espaço específico para fazer o acolhimento, para incentivar as políticas de prevenção e mais, para fazer o monitoramento", explicou a professora.
Enquanto a comunidade escolar discute medidas internas, a Polícia Civil do Rio de Janeiro segue investigando os casos denunciados.
De acordo com a corporação, além do episódio de estupro coletivo que motivou o protesto, outros dois casos de violência sexual envolvendo alunas do Colégio Pedro II também estão sob investigação.
Segundo a polícia, as denúncias indicam que os crimes teriam sido cometidos por integrantes do mesmo grupo.
Uma das vítimas relatou ter sido abusada quando tinha 14 anos. Atualmente, a jovem tem 17 anos.
Os investigadores trabalham para reunir provas e depoimentos que possam esclarecer as circunstâncias dos casos e identificar todos os envolvidos.
Em nota oficial, o Colégio Pedro II manifestou repúdio aos episódios de violência e declarou solidariedade às estudantes.
A instituição afirmou que as condutas denunciadas são incompatíveis com os valores defendidos pela escola.
O comunicado também informou que foi instaurado um processo disciplinar interno para apurar a participação de alunos nos casos relatados.
A direção da instituição ressaltou ainda que o tema não está sendo ignorado e que a discussão tem ocorrido em diferentes espaços institucionais da escola.
"O colégio disse ainda que não há silêncio institucional e que o assunto tem sido objeto de debate em fóruns da instituição", informou a nota.
A reportagem também tentou contato com a defesa de Vitor Hugo Oliveira Simonin e com seu pai, o ex-subsecretário José Carlos Simonin, mas não conseguiu resposta até o fechamento desta matéria.
O caso continua sendo investigado pelas autoridades policiais, enquanto a comunidade escolar segue mobilizada em busca de medidas que garantam maior proteção e acolhimento às vítimas de violência.